Interpretação e compreensão de textos: qual a diferença?

Interpretação e compreensão de textos: qual a diferença?

Muito concurseiro se perde em questões de leitura de textos exatamente por não saber o que a questão está solicitando ao leitor, afinal qual a diferença entre compreensão e interpretação de textos? Por que tanta gente comete erros diante dessas questões?

O que é compreensão de textos?

A ação de compreender um texto resulta de um processo linguístico-semântico e cognitivo. Entenda que compreender um texto é reconhecer o que ele diz. E o texto diz muita coisa explícita e muita implícita.

Para compreender a informação explícita, o leitor se vale de seu vocabulário e seu conhecimento de estruturas gramaticais e processos semânticos, ou seja, ele se vale do seu repertório linguístico para decodificar, para decifrar as mensagens ali expressas pelo autor.

O conhecimento linguístico do leitor permitirá a ele reconhecer o material explícito com maior ou menor dificuldade, conforme seja maior ou menor a distância entre o seu repertório e conhecimento de mundo, e o repertório e conhecimento de mundo apresentados pelo autor do texto no próprio texto.

O conhecimento linguístico e de mundo do leitor é diretamente proporcional ao seu grau de entendimento no texto. A sua inserção cultural no texto é definida com base nisso. Quanto maior o vocabulário, o conhecimento da regra gramatical, o léxico, maior será o alcance do que compreenderá daquilo que lê. É por meio desse conhecimento de mundo que o leitor cer o subentendido no texto.

Assim, para melhorar a sua capacidade de compreensão, o leitor deve: ampliar o seu vocabulário; ter maior domínio dos recursos gramaticais; e aumentar o seu repertório informativo.

Como ampliar o vocabulário?

Uma leitura inteligentemente conduzida deve ser executada de forma a gerar o máximo de informações possível ao leitor. Essas informações vão além da simples coleta de dados. Uma das grandes funções da leitura é a ampliação do vocabulário do leitor.

Por isso, além de compreender o significado das palavras e expressões no contexto em que são usadas, o leitor deve se valer de bons dicionários para sanar qualquer dúvida sobre o significado de palavras e expressões desconhecidas.

Há bons minidicionários impressos, como o Minidicionário Caldas Aulete (Editora L&PM), o Minidicionário Houaiss (Editora Moderna) e o Minidicionário Aurélio (Editora Positivo), mas também há excelentes dicionários eletrônicos, entre os quais o que mais destaco é o Dicionário da Língua Portuguesa (Editora Porto), cuja versão para celular (App) e computador é realmente excelente. (Clique aqui para baixar o App do Dicionário de Língua Portuguesa da Editora Porto no seu celular, ou aqui se quiser baixar no seu computador.)

Resolução de questões sobre vocabulário e exercícios de palavras cruzadas contribuem muito também.

Quando imprimimos listas de exercícios de palavras sinônimas, antônimas, homônimas e parônimas, exercícios de reescritura de frases, de substantivos masculinos e femininos, substantivos coletivos, adjetivos eruditos… sem dúvidas, ampliamos o nosso vocabulário.

O exercício frequente de palavras cruzadas, além de ser um excelente passatempo, ajuda-nos a aprender de forma lúdica. Brincando, aprendemos. Agora, você deve escolher livretos de palavras cruzadas de acordo com o seu nível vocabular e, aos poucos, deve adquirir outros cujo nível de dificuldade vai aumentando paulatinamente.

Como ter maior domínio gramatical?

Existem regras e regras da gramática da língua portuguesa. E algumas dessas regras têm maior peso do que outras em termos de compreensão de textos. Por exemplo, ter pouco conhecimento sobre fonética, ou não saber as nomenclaturas da morfossintaxe na ponta da língua não chega a ser uma tragédia.

Mas, o desconhecimento do poder das vírgulas, a falta de noção da sintaxe da oração ou do período, o desconhecimento das conjunções e seus efeitos de sentido, tudo isso pode dificultar o entendimento de certas mensagens.

Portanto, meu caro, ao estudar a gramática da Língua Portuguesa para o seu concurso ou vestibular, tenha em mente os seguintes assuntos: pontuação (em especial o uso das vírgulas); concordância verbal e nominal; regência verbal e nominal; crase; o valor semântico das preposições, conjunções, advérbios; as funções da linguagem; as figuras de linguagem; significação de palavras; e o uso dos pronomes.

Como aumentar o repertório informativo?

Estar bem informado é condição essencial para a leitura. É um processo retroalimentar, pois, quanto mais se lê, mais se conhece; e, quanto mais se conhece, melhor se lê.

O repertório informativo de uma pessoa é exatamente o conjunto de todas as informações que essa pessoa adquiriu ao longo de sua vida: todo o que leu, tudo a que assistiu, tudo o que ouviu e sentiu, tudo o que vivenciou e experienciou, enfim tudo com que teve contato ao longo da vida gerou algum tipo de informação.

É essa informação, ou melhor, o conjunto delas a que se chama de repertório. É com base nesse repertório sociocultural que o leitor será capaz de reconhecer informações implícitas, ou seja, o que está dito, mas não está escrito, o subentendido.

A leitura ainda é a melhor forma de potencialização do repertório. Sabemos muito bem que não é a única. Mas, é durante o processo de leitura que acionamos uma série de raciocínios, que nos ajudam a construir significados para aquilo que lemos. Portanto, sugiro que você realize frequentemente dois tipos de leituras que eu chamo de Leitura Panorâmica e Leitura Pontual.

O que é uma leitura panorâmica?

Chamo de leitura panorâmica aquela cujo livro traz uma abordagem diacrônica do tema do qual se ocupa. Em outras palavras, o conteúdo do livro aborda de forma panorâmica a evolução histórica do tema.

São exemplos de obras com essa característica “Era dos Extremos: o breve século XX”, de Eric Hobsbawm (Editora Companhia das Letras); “A História do Mundo Para Quem Tem Pressa”, de Emma Marriot (Editora Valentina); “História do cristianismo: Uma obra completa e atual sobre a trajetória da igreja cristã desde as origens até o século XXI”, de Bruce Shelley (Editora Thomas Nelson Brasil); entre outras.

O que é uma leitura pontual?

Chamo de leitura pontual, aquela cujo objetivo é reconhecer um dado, uma informação, especificamente, num determinado contexto, numa época específica, considerando inclusive a possibilidade de analisar o tema da leitura sob perspectiva diferentes, lendo autores de pensamento e formação diferentes.

Trata-se de uma ação mais transversal, uma vez que o mesmo tema é analisado em áreas até distintas. Por exemplo: analisar a liberdade de expressão sob o foco da filosofia, do direito, da antropologia, da sociologia, da política, da ética.

Aqui, para exemplificar, elencarei um tema e sugerirei obras diferentes para analisá-lo. Imagine o tema o Capitalismo? Seria muto bom ler o que Karl Marx e Ludwig von Mises dizem a respeito. O primeiro nos dá a obra “O Capital” (Editora LTC); o segundo nos fornece a obra “Teoria e História” (LVM Editora). Certamente, os pontos contrastantes da teoria de ambos, ajudaria o leitor a chegar às suas próprias conclusões.

Compreensão de textos em provas de concursos

A Compreensão (ou Intelecção) baseia-se em coletar dados do texto, ou seja, analisar o que realmente está escrito. Eis alguns exemplos de comandos de compreensão de textos que encontramos em enunciados de questões de concursos:

  • Segundo o texto, está correta…
  • De acordo com o texto, está incorreta…
  • Tendo em vista o texto, está incorreta…
  • A partir do texto, é certo…
  • O autor afirma que…

Assista a esta aula pata saber mais sobre a diferença entre compreensão e interpretação de textos.

O que é interpretação de textos?

A ação de interpretar um texto também resulta de uma ação linguístico-semântica, porém essa ação leva o leitor a um nível bem mais elevado de raciocínio. Vamos consolidar agora a diferença entre compreensão e interpretação de textos.

Interpretar um texto significa reconhecer o que ele permite dizer. Interpretar é, em outras palavras, produzir inferências. E a inferência mais comum que o leitor constrói a partir do que lê é o pressuposto.

Para quem não sabe, pressupostos são inferências que construímos com base em traços informativos que reconhecemos no texto lido. Por exemplo, se lemos em algum texto a seguinte frase “O Brasil não vai mais realizar relações comerciais com países cujo sistema político não respeita direitos humanos”, pode-se pressupor que o Brasil realizava até então transações comerciais com países que possuíam sistemas políticos ditatoriais que desrespeitavam os direitos humanos.

Outro exemplo: se alguém diz que “A mulher do Manuel servia de laranja para as transações ilícitas dele”, pressupõe-se que Manuel é casado. E o que é mais interessante: a pressuposição vence até a negação, pois, mesmo que se diga “A mulher do Manuel não servia de laranja para as transações escusas dele”, ainda podemos inferir que Manuel é casado.

Interpretação de textos em provas de concursos

A Interpretação consiste em saber o que se infere, isto é, o que se conclui, o que se deduz, o que se pressupõe do que está escrito. Os enunciados das questões de concurso normalmente podem ser apresentados com os seguintes comandos:

  • O texto possibilita o entendimento de que…
  • Com apoio no texto, infere-se que…
  • Pretende o texto mostrar que o leitor…
  • O texto possibilita deduzir que…

Conclusão: agora você sabe a diferença entre compreesão e interpretação de textos

Para interpretar um texto corretamente, é necessário compreendê-lo. Para compreendê-lo, é necessário decifrá-lo. Assim sendo, todas as habilidades exigidas pela ação de compreender um texto, são necessárias também à interpretação. Por isso, é necessário saber a diferença entre compreensão e interpretação de textos.

Uma ação implica na outra, como grandezas diretamente proporcionais. Por isso, posso afirmar categoricamente que, se leio pouco, meu conhecimento se constrói sob fundações frágeis. Não serei capaz de reconhecer o texto em suas mais profundas camadas, minha interpretação será, fatalmente, afetada. E poderei cometer erros clássicos de entendimento. (Para saber mais sobre erros clássicos de entendimento, clique aqui.) Porém, se leio bem, serei capaz das mais complexas inferências, das deduções mais primorosas, de reconhecer as camadas mais profundas e amplas do texto.

Um forte abraço!

Professor Adeildo Júnior

 

 

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